Quando o amor não foi aprendido em palavras

acervo pessoal

Entrar no apartamento da minha mãe depois de tudo o que vivemos recentemente foi uma experiência difícil. Mexer nos papéis, abrir gavetas, encontrar pequenos objetos guardados ao longo da vida… tudo parecia carregar silêncio, memória e ausência.

Mas algo me chamou atenção de forma muito profunda: os cartões.

Cartões guardados com cuidado. Alguns antigos. Outros já amarelados pelo tempo.

E aquilo me fez pensar.

Minha mãe não era uma pessoa de mandar cartões. Não fazia ligações de aniversário. Não escrevia cartas. Não era alguém que verbalizava sentimentos com facilidade. Celebrar emocionalmente as pessoas não fazia parte da forma como ela aprendeu a viver.

E, durante os últimos anos, eu vinha tentando mostrar a ela a importância disso. A importância de comunicar amor. De manter presença. De dizer “eu pensei em você”. Especialmente quando a família vive distante.

Eu sentia falta disso. Nós sentíamos.

Mas, olhando aqueles cartões guardados, eu também percebi outra coisa: talvez minha mãe simplesmente não soubesse como fazer.

Talvez ela não se sentisse confortável.
Talvez não fosse natural.
Talvez ela nunca tenha aprendido.

E quantas pessoas vivem assim?

Pessoas que amam, mas não conseguem comunicar.
Pessoas que sentem, mas se endureceram.
Pessoas que carregam afeto, mas nunca desenvolveram linguagem emocional para expressá-lo.

Na clínica, isso aparece o tempo todo.

Pais que dizem amar profundamente seus filhos, mas que não conseguem demonstrar.
Filhos que interpretam silêncio como desinteresse.
Famílias que convivem, mas não sabem criar conexão emocional.

Porque amor também é linguagem aprendida.

Mandar um cartão.
Escrever uma carta.
Ligar.
Mandar uma mensagem.
Perguntar como o outro está.
Dar um “oi” sincero.

Tudo isso são formas de marcar presença e manter vínculos vivos.

Hoje, vendo minha filha Marina vivendo em Barcelona com Pedro, percebo o esforço bonito que ela faz para manter a conexão conosco. Nós agendamos horários para conversar. Nos revezamos para manter os contatos individuais. Ela envia cartões e postais que simbolizam algo muito maior do que papel.

Eles simbolizam tempo.
Presença.
Intenção.
Memória afetiva.

É a forma dela dizer:
“Mesmo distante, eu continuo aqui com vocês.”

E talvez seja justamente isso que muitas famílias estejam perdendo sem perceber.

Porque a vida vai passando.
Os dias ficam corridos.
As respostas vão ficando para depois.
As demonstrações de amor também.

E, quando a gente percebe, algumas oportunidades já passaram.

Essas últimas semanas têm mexido muito comigo.

Tenho pensado sobre a nossa responsabilidade emocional de estar presente na vida das pessoas que amamos. Sobre falar o que sentimos enquanto ainda existe tempo. Sobre não esperar grandes perdas para reconhecer a importância das relações.

Porque nem toda perda acontece no luto.

Às vezes perdemos amigos.
Perdemos vínculos.
Perdemos oportunidades de aproximação.
Perdemos momentos que nunca mais voltam.

E muitas vezes não foi por falta de amor.
Foi por falta de expressão.
Por falta de presença.
Por falta de coragem emocional.

Talvez hoje seja um bom dia para pensar nisso.

Quem você ama sabe disso?
Quem você ama sente isso?
Ou você também está deixando para depois?

Com carinho,
Claudia Farias

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